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Editora: 12min
O transporte coletivo de uma cidade grande funciona por concessão: a prefeitura contrata empresas privadas para operar linhas, define as regras de remuneração e fiscaliza o serviço. Quem controla uma dessas empresas não opera apenas ônibus. Passa a ter contratos com o poder público, receita entrando todos os dias e motivo legítimo para se sentar com quem decide pagamentos e licitações.
É exatamente isso que investigadores de São Paulo dizem ter encontrado. Segundo uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, o Primeiro Comando da Capital, conhecido pela sigla PCC, teria controle, em tese, de 12 das 22 empresas que operam o transporte coletivo da capital. "Salta aos olhos que as investigações apontam que 12 das 22 empresas de transporte operando o sistema de transporte coletivo da capital são, em tese, controladas pelo PCC", escreveu o desembargador Sérgio Ribas ao autorizar a Operação Vectura Corrupta.
O professor Ciro Biderman, da Fundação Getulio Vargas, avaliou ao g1 que a explicação não está no dinheiro vivo das catracas. Com o Bilhete Único e os meios eletrônicos de pagamento, a circulação de cédulas caiu. O interesse, segundo ele, está em outro lugar: a possibilidade de fazer grandes aplicações financeiras, transformar dinheiro ilícito em receita formal, ter fluxo diário de caixa e manter relações com agentes públicos.
O setor combina três características, na avaliação dele. Exige grande aporte de dinheiro, o que facilita a lavagem. É tecnicamente menos complexo que outros serviços de infraestrutura: "Compara com outros serviços... Uma rodovia, por exemplo, é muito mais complicado, apenas meia dúzia de pessoas são especialistas. Compara com saneamento, com saúde. É muito mais difícil, mais complexo", disse. E gera receita permanente: uma vez comprada a frota, entra dinheiro todo dia, o que ele chama de "liquidez diária formal".
As 12 empresas citadas operam todas as linhas de distribuição local da cidade, aquelas que fazem os trajetos curtos dentro dos bairros e entre bairros vizinhos. São 510 linhas municipais, 38% da rede da capital. Em agosto de 2026, essas empresas transportaram cerca de 41% de todos os passageiros do sistema municipal de ônibus.
Elas atuam nas zonas Norte, Sul, Leste e Oeste. A única exceção é a região central. Pelos indicadores da própria SPTrans, também concentram alguns dos piores desempenhos: oito das dez últimas posições do Índice de Qualidade do Transporte mais recente são de concessionárias do sistema local de distribuição. A A2 Transportes aparece em último lugar entre 40 operadoras, com 58,11 pontos, faixa que a SPTrans classifica como "ruim".
As empresas citadas são Viação Transcap (atual Bless), Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial, Move Buss, Pêssego, Allianz (atual Allibus), Transunião, Qualibus (atual UPBus), Norte Bus e Spencer.
Milton Leite deixou a vida pública no ano passado, depois de sete mandatos como vereador em São Paulo e quatro passagens pela presidência da Câmara Municipal. Hoje preside o União Brasil na capital e, desde julho, a Federação União Progressista no estado.
A decisão que autorizou a operação o cita "nominalmente por diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC". O texto acrescenta declarações de policiais militares, prestadas em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais ele seria o dono de fato da Transwolff.
Quando os policiais chegaram à casa dele para cumprir o mandado, não o encontraram. Uma funcionária relatou que ele havia saído na noite anterior para um compromisso de campanha. Em nota, o ex-vereador afirmou: "Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações." Entregou-se na sexta-feira, 18, em Mogi das Cruzes. Na casa dele em Sorocaba, a Polícia Civil e o Ministério Público encontraram uma passagem secreta e R$ 765 mil em espécie. Dois dias depois da prisão, o escritório dele em Santo Amaro foi invadido: os criminosos deixaram para trás R$ 19.261 em dinheiro e levaram o equipamento que guardava as imagens das câmeras.
A defesa da Transwolff afirma que Milton Leite nunca teve participação societária na empresa, nunca participou da gestão nem "deu ordens", e que a afirmação está "completamente equivocada e dissociada da realidade".
Na quarta-feira, 23, o ministro Rogério Schietti Cruz, do Superior Tribunal de Justiça, negou o pedido de liberdade em caráter liminar. Ele apontou que não cabe àquele tribunal julgar habeas corpus contra decisão de desembargador antes que o colegiado de segundo grau se pronuncie. E sustentou que a prisão foi decretada com base em "elementos concretos", necessária ao avanço da investigação sobre o "gravíssimo fato da afirmada infiltração de facção criminosa no transporte público".
A defesa argumenta que o mandado se baseou em duas circunstâncias em que o nome dele foi mencionado por terceiros, e que, conforme mostrou a Folha, nenhuma outra prova, como pagamentos ou vínculos societários, aparece nas representações da polícia e da Promotoria. "Não se diz quando, por quem, em que contexto ou em que termos o paciente foi 'citado'; não se descreve um só ato seu; e, principalmente, não se aponta crime algum, muito menos do rol taxativo: ser dono de fato de empresa de transporte não é crime", afirmam os advogados. O mérito do habeas corpus ainda será julgado.
A partir de março deste ano, segundo documentos obtidos pelo GLOBO, duas empresas de Milton Leite, a Planevia e a Lesimo, passaram por reformulações que ampliaram o capital, dividiram cotas entre familiares e incluíram como sócias três companhias recém-criadas: SX 070, Centurion e Lions L8. O capital social da Planevia saltou de R$ 800 mil para R$ 34,4 milhões.
As três sócias foram criadas originalmente por Daniel Moreira Bezerra. Entre outubro de 2024 e abril deste ano, ele foi diretor ou sócio-administrador de pelo menos 50 empresas com "empreendimentos e participações" no nome, todas registradas com capital social de R$ 100 e o mesmo endereço de sede, uma sala em edifício comercial da Avenida Paulista. São os chamados CNPJs de prateleira, abertos de forma genérica para depois serem transferidos a outras pessoas. Criar esse tipo de empresa não é ilegal; usá-la para ocultar a origem de recursos pode ser.
O mesmo Bezerra criou, em outubro de 2024, a SX 016, que em dezembro daquele ano passou a se chamar Tirreno. Segundo relatórios do Banco Central, a Tirreno cedeu ao Banco Master, entre janeiro e junho de 2025, uma carteira de empréstimos consignados de R$ 6,7 bilhões, sem que os documentos que respaldavam esses empréstimos fossem formalizados. Para a Polícia Federal, a empresa, sem funcionários e sem movimentação bancária efetiva, foi usada para maquiar a origem de R$ 7,155 bilhões em consignados. O GLOBO procurou a defesa de Milton Leite e o próprio Bezerra, e não recebeu resposta.
No sábado, 19, a polícia paulista prendeu na Bolívia Márcio Barbosa da Silva, o Beiço, apontado como liderança do PCC no ABC Paulista e citado na mesma investigação. Segundo os investigadores, ele era apurado por tentar aproximar a facção de instituições públicas, sobretudo prefeituras, com eventual uso de partidos. O delegado-geral da Polícia Civil, Artur José Dian, afirmou em coletiva que uma ligação direta com o ex-vereador ainda não foi estabelecida: "São situações independentes, não têm necessariamente ligação com a ação que prendeu o ex-vereador. Ainda temos um campo de investigação para estabelecer o eventual vínculo do Beiço com o ex-vereador."
A Vectura Corrupta é desdobramento da Operação Decurio, iniciada em agosto de 2024, que identificou uma fintech da facção com movimentação de cerca de R$ 8 bilhões. Ao todo, 16 pessoas foram alvo de mandados de prisão e houve buscas em 18 endereços em sete municípios.
Três frentes seguem em aberto e afetam coisas diferentes. A primeira é judicial: o mérito do habeas corpus de Milton Leite ainda será julgado, e a defesa também pede a anulação da decisão que o prendeu. O que estiver em disputa ali, se citações feitas por terceiros bastam para sustentar uma prisão, vale para todos os outros investigados da mesma operação.
A segunda é o serviço. A Prefeitura criou um grupo com a Procuradoria-Geral do Município, a Controladoria, a SPTrans e a Secretaria de Mobilidade para avaliar intervenção na A2 Transportes e levantar contratos e vínculos. Vale acompanhar se isso avança para outras das 12 empresas citadas. Como elas operam a totalidade das linhas de bairro, qualquer medida administrativa chega direto ao trajeto de quem depende dessas linhas na periferia. O prefeito Ricardo Nunes afirmou que não há risco de interrupção do serviço.
A terceira é eleitoral. A operação apura o envolvimento da facção no financiamento de campanhas nas eleições de 2024 e na deste ano. Um dos investigados, Danilo Marco Morgado Silva, é candidato a deputado estadual e teve a campanha municipal de 2024 apontada como financiada pela organização; a defesa dele nega "de forma veemente qualquer irregularidade em campanha ou qualquer tipo de envolvimento com o crime organizado". O tema já chegou ao debate entre os candidatos ao governo de São Paulo, com Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas trocando acusações sobre aliados ligados ao caso.
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